quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ESTRANHEZA

Que estranho ser habita em mim
Na calada da noite,
Enquanto homens e mulheres de bem
Dormem o sono dos justos?

Enquanto eu me transformo em outras mulheres,
Estranhas que não conheço,
Sinto despertar em meu peito sentimentos novos, ardentes,
Que clamam por sair aos gritos de dentro de mim.

Não me reconheço ao olhar-me no espelho
E ao mesmo tempo em que me encaro estranha e feia,
Vejo brotar em meus olhos
Um sorriso feito de tempo.

Sou aquela que beijou teus lábios frios,
A mesma que acalentou a criança abandonada,
A que acolheu o orvalho da madrugada.
Sou aquela que, pouco a pouco, segurou teu ombro trêmulo de medo,
Abraçou a velhinha cansada da esquina,
Deu alimento aos famintos,
Consolou teu choro,
Aliviou tua dor...

Meu nome?
Pode me chamar solidariedade!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

TÉDIO

Estranha palavra que diz muito em cinco letras:
Água parada
Mosquito
Dia nublado
Inquietação
Cerveja quente
Mormaço
Morgação.

Estranha palavra que traduz pensamentos inquietos em apenas cinco letras:
Morbidez
Cheiro de lama
Máscaras
Bocejo
Zumbido
Quadrado
Fumaça
Frieza
Bocejo
Mormaço
Cerveja quente
Que tédio!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SONETO QUE SE FAZ CANÇÃO

A dor que trago em meu peito
Escondo, orgulhosa, atrás de um sorriso
Ninguém ouvirá meu grito, meu lamento
Ou saberá, nesse mundo, qual o meu castigo.

Essa dor cruel, torturante
Faz este frágil corpo chorar lágrimas vermelhas
- de suor e de sangue –
Enquanto vislumbro no céu milhares de estrelas.

Que céu tumultuado
Que estrelas frias
Que noite solitária!

Nenhuma brisa afasta o mistério
De minha vida que se esvai em sombras
Que alma sou eu, sem cemitérios
Que mar me tem, sem areia, sal e ondas.

Sei que procuro por mim nesse abismo profundo
Que traduz em música minha alma feminina
E a estrada que dá voltas nesse mundo
É espaço para mergulhar fundo na água cristalina
Que é você: amor mais que perfeito
Sentimento que transcende
Na busca do verdadeiro!

CORES

Meus olhos buscam o equilíbrio
Entre o pulsar e o morrer
E a brusca parada não freia meus anseios.
São esses falsos valores que tentam me impor
Que me impulsionam para o salto...

Não tenho limites,
O azul me espera ardente
(mesmo quando o vermelho explode em ondas diante de mim),
E o cheiro da vida traz as mentiras da contínua luta.

Não espero flores
Nem as cores do arco-íris.
Quero o breu da dor
Onde posso esconder a saudade,
Onde posso me perder...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Balada de uma Mujer

para minha amiga paulista

Quem me dera nas tardes amenas
Andar de mãos dadas nas calçadas sombreadas pelos jasmins,
Contar sempre com as amizades serenas,
Que nos façam melhores,
Que nos protejam e desejem nosso bem maior...

Quem me dera uma mujer para me consolar
Desejar minha alegria
Se deixar levar pelas estradas das gargalhadas,
Animar os dias, bebemorar a vida!

Ela será eterna amiga
Nas crises presente,
No passar dos anos – menina-mulher iluminada
Que cultiva flores,
Protege a vida – qualquer que seja...

Risada cristalina e presente,
Mão forte,
Palavra que o vento não leva,
Beleza interior e completa!

terça-feira, 7 de julho de 2009

VIAGEM

O poeta no tempo
Caminha, anda
Resiste!
Muda de rumo
Se perde, se acha
Perdão.
Insiste!
Seu mundo é noite perdida,
Vestida de prata.
Tão sua!
O vento desfaz sua mente.
Sua vida se vai.
As horas que passam
Seus dedos que correm
Sua fantasia é infinita!
Será fantasia?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CONTO DO PAI

A morte conversava baixinho, todos os dias, com o velho pai. Contava de suas aventuras desde o início dos tempos, de tudo que tinha ouvido e presenciado enquanto visitava vilarejos, cidades, reinos longínquos de contos de fadas, casas simples e mansões.

O valho pai escutava receoso, às vezes com o olhar assustado, outras vezes meio inconsciente. Eram tantas as histórias, e tão estranhas e inevitáveis que faziam o homem sentir medo, buscar fugas impossíveis, imaginar meios de passar desapercebido pela Morte, quem sabe ser deixado de lado mais um tempo, sendo esquecido num cantinho qualquer.

Mas ela, atenta, voltava sempre, às vezes pegando suas mãos magras, outras vezes tendo que segurá-lo no colo. E sussurrava palavras que se iam esvoaçando como as folhas no outono, carregadas pelo vento forte.

O velho pai, fragilizado pelas mazelas diárias, buscava fragmentos de seu passado, de esperança, e sentia a vida, como água cristalina, se esvair por entre seus dedos trêmulos.

E o coração cansado, debilitado por tanta vida e sofrimento, diminuía seu ritmo, seu pulsar, guardando suas últimas forças para o que ainda estava por vir.

O velho pai tremia de frio, de receio pelo que não conhecia, pelo que sua imaginação de poeta deixava entrever quando fechava seus olhos secos e cansados.

A Morte, sempre paciente, esperava. O ciclo da vida, mão de única via, tinha seu próprio tempo. O velho pai continuava, sabendo que certas batalhas são vitoriosas, mesmo quando perdidas.

E as ondas do mar, misturadas com a chuva que caía nesse mês de inverno nordestino, molhava seus pés frios, vestidos com meias novas, brancas.