Nunca vivi um dia sequer sem pensar na morte...
Caminho pelas ruas de minha cidade e vejo pequenos animais mortos: passarinhos, formigas, aranhas, lagartos verdes e marrons. Um dia desses, vi um sapo barriga de fogo, inchado e morto!
As plantas também morrem diariamente: as flores murcham e caem de seus caules, as folhas amarelam e caem no solo, e são levadas pelo vento.
Ligo a televisão e vejo os mortos de um atentado no Afeganistão. Nem sei onde fica esse país, mas vejo sangue e morte por todo o chão!
Logo adiante nova notícia, bandidos e policiais em tiroteio no Rio de Janeiro, menino morto com bala perdida...
Até as palavras, que tanto falam de amor e dor, e amantes ardentes, e nuvens no azul do céu, também morrem quando falam em cemitérios, almas penadas, tragédias e terremotos.
Nunca pensei na morte como uma passagem. Mas o outono é uma passagem e é morte! E é vento frio e madrugadas vazias.
Será que a dor que sinto intensamente em meu peito antigo e frágil é a minha morte? Será que morro nesse dia triste de setembro?
A morte mora em mim e sempre vivo no outono!
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terça-feira, 18 de maio de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
OUTONO
Manhã.
Acordo cedo, com o cheiro da terra vermelha molhada!
Não acredito, abro a janela... nuvens negras cobrem o céu e, animada, corro para fora.
Nem percebo a camisola fina, os pés descalços, os cabelos brancos despenteados.
Não sinto a fome de dias envergando meu corpo pálido e magro. Não vejo o casebre arrasado pela morte, o chão de barro pisado, a cal descascando pela ação do sol agrestino.
Cheiro ofegante o ar úmido do outono, e viajo nas cores vermelhas e alaranjadas dos arbustos, do capim ressecado pelo eterno verão e respiro a esperança do verde!
Pulo que nem criança, comemorando o novo!
Será verdade?
Vivo sem perceber as estações: sempre verão, pouco inverno a não ser em meu coração.
E o outono chegou?
Espero e não desisto. Não interessa se sonho ou se estou apenas viva. Quero tecer as cores outonais no meu coração, nessa tapeçaria de saberes nordestinos.
Acordo cedo, com o cheiro da terra vermelha molhada!
Não acredito, abro a janela... nuvens negras cobrem o céu e, animada, corro para fora.
Nem percebo a camisola fina, os pés descalços, os cabelos brancos despenteados.
Não sinto a fome de dias envergando meu corpo pálido e magro. Não vejo o casebre arrasado pela morte, o chão de barro pisado, a cal descascando pela ação do sol agrestino.
Cheiro ofegante o ar úmido do outono, e viajo nas cores vermelhas e alaranjadas dos arbustos, do capim ressecado pelo eterno verão e respiro a esperança do verde!
Pulo que nem criança, comemorando o novo!
Será verdade?
Vivo sem perceber as estações: sempre verão, pouco inverno a não ser em meu coração.
E o outono chegou?
Espero e não desisto. Não interessa se sonho ou se estou apenas viva. Quero tecer as cores outonais no meu coração, nessa tapeçaria de saberes nordestinos.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Encontro
Ela chegou de mansinho, como quem andava em nuvens, e ele apenas sentiu seu perfume fresco, de rosas se abrindo num dia de abril, depois da breve chuva da madrugada.
Ela tinha um jeito meio assim, quase sonhadora, de menina que brinca pisando em poças de chuva; Ele, meio curtido pelo sol sertanejo, era de poucas palavras, econômico também nos gestos, mas de uma emoção sem tamanho que trancava no peito.
Ele gostava do cheiro da terra úmida, sinal de plantas brotando; Ela preferia o gosto tenro da maçã.
Ela era feita de pele macia, cheia de curvas e fartura; Ele, ossos e couro meio velho, rugoso pelo sol do nordeste.
Ela buscava sonhos e nuvens; Ele, a solidez da sobrevivência.
Ela era música; Ele, silêncio.
Entre eles, a pele em fogo, a química ardente, o gosto do querer.
Foram dois, e no encontro, apenas UM.
Ela tinha um jeito meio assim, quase sonhadora, de menina que brinca pisando em poças de chuva; Ele, meio curtido pelo sol sertanejo, era de poucas palavras, econômico também nos gestos, mas de uma emoção sem tamanho que trancava no peito.
Ele gostava do cheiro da terra úmida, sinal de plantas brotando; Ela preferia o gosto tenro da maçã.
Ela era feita de pele macia, cheia de curvas e fartura; Ele, ossos e couro meio velho, rugoso pelo sol do nordeste.
Ela buscava sonhos e nuvens; Ele, a solidez da sobrevivência.
Ela era música; Ele, silêncio.
Entre eles, a pele em fogo, a química ardente, o gosto do querer.
Foram dois, e no encontro, apenas UM.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
CONTO DO PAI
A morte conversava baixinho, todos os dias, com o velho pai. Contava de suas aventuras desde o início dos tempos, de tudo que tinha ouvido e presenciado enquanto visitava vilarejos, cidades, reinos longínquos de contos de fadas, casas simples e mansões.
O valho pai escutava receoso, às vezes com o olhar assustado, outras vezes meio inconsciente. Eram tantas as histórias, e tão estranhas e inevitáveis que faziam o homem sentir medo, buscar fugas impossíveis, imaginar meios de passar desapercebido pela Morte, quem sabe ser deixado de lado mais um tempo, sendo esquecido num cantinho qualquer.
Mas ela, atenta, voltava sempre, às vezes pegando suas mãos magras, outras vezes tendo que segurá-lo no colo. E sussurrava palavras que se iam esvoaçando como as folhas no outono, carregadas pelo vento forte.
O velho pai, fragilizado pelas mazelas diárias, buscava fragmentos de seu passado, de esperança, e sentia a vida, como água cristalina, se esvair por entre seus dedos trêmulos.
E o coração cansado, debilitado por tanta vida e sofrimento, diminuía seu ritmo, seu pulsar, guardando suas últimas forças para o que ainda estava por vir.
O velho pai tremia de frio, de receio pelo que não conhecia, pelo que sua imaginação de poeta deixava entrever quando fechava seus olhos secos e cansados.
A Morte, sempre paciente, esperava. O ciclo da vida, mão de única via, tinha seu próprio tempo. O velho pai continuava, sabendo que certas batalhas são vitoriosas, mesmo quando perdidas.
E as ondas do mar, misturadas com a chuva que caía nesse mês de inverno nordestino, molhava seus pés frios, vestidos com meias novas, brancas.
O valho pai escutava receoso, às vezes com o olhar assustado, outras vezes meio inconsciente. Eram tantas as histórias, e tão estranhas e inevitáveis que faziam o homem sentir medo, buscar fugas impossíveis, imaginar meios de passar desapercebido pela Morte, quem sabe ser deixado de lado mais um tempo, sendo esquecido num cantinho qualquer.
Mas ela, atenta, voltava sempre, às vezes pegando suas mãos magras, outras vezes tendo que segurá-lo no colo. E sussurrava palavras que se iam esvoaçando como as folhas no outono, carregadas pelo vento forte.
O velho pai, fragilizado pelas mazelas diárias, buscava fragmentos de seu passado, de esperança, e sentia a vida, como água cristalina, se esvair por entre seus dedos trêmulos.
E o coração cansado, debilitado por tanta vida e sofrimento, diminuía seu ritmo, seu pulsar, guardando suas últimas forças para o que ainda estava por vir.
O velho pai tremia de frio, de receio pelo que não conhecia, pelo que sua imaginação de poeta deixava entrever quando fechava seus olhos secos e cansados.
A Morte, sempre paciente, esperava. O ciclo da vida, mão de única via, tinha seu próprio tempo. O velho pai continuava, sabendo que certas batalhas são vitoriosas, mesmo quando perdidas.
E as ondas do mar, misturadas com a chuva que caía nesse mês de inverno nordestino, molhava seus pés frios, vestidos com meias novas, brancas.
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